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6
O desastre da separação conjugal

Como pode, alguém ler uma mensagem com um título chocante como este e postar como “Recebi, li e gostei”? Na verdade, queridos (as), creio que Deus pode reconciliar um casal separado qualquer que seja a circunstância. Creio também que Ele pode restaurar casamentos e famílias. Desejando assim o casal, Ele o faz.

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A carta abaixo, resumida pela redação, foi escrita literalmente por uma garota de dezesseis anos para seu pai, que há poucas semanas havia abandonado a família para viver com outra mulher.

Querido pai!

Já é tarde, e eu estou aqui, sentada na minha cama, tentando escrever esta carta. Quantas vezes procurei falar-lhe nas últimas semanas, mas não consegui ficar a sós com você!

Ainda não posso acreditar que você está vivendo com outra pessoa e não consigo imaginar que você e mamãe nunca mais ficarão juntos. Para mim é difícil aceitar esses fatos, principalmente quando fico imaginando seu retorno para casa, voltando a ser o pai que sempre foi para mim e para meu irmão.

Eu gostaria, ao menos, que você entendesse o que está acontecendo em nossas vidas. Por favor, não pense que foi mamãe que me mandou escrever! Ela nem sabe que estou escrevendo. Eu apenas quero lhe contar o que estou pensando e sentindo com a separação de vocês.

Papai, imagino nossa família como um automóvel bem bonito em que viajamos juntos por muito tempo. Por fora ele parece inteiro, sem arranhões e sem ferrugem, e em seu interior há muitos equipamentos. Mas com o tempo apareceram alguns problemas. O motor solta fumaça, as rodas balançam, o revestimento dos assentos está rasgado, a direção está dura, é trabalhoso manobrá-lo, o escapamento está furado e barulhento. Mas sabe de uma coisa, papai? Ele continua sendo um bom carro – ou ao menos poderia ser. Investindo um pouco, ele ainda poderia rodar por muitos e muitos anos.

Meu irmão e eu sempre sentávamos no banco de trás, você e mamãe ficavam na frente. Nós nos sentíamos seguros quando você dirigia e mamãe estava ao seu lado. No mês passado, porém, quando você foi embora, mamãe teve de assumir a direção. Era noite, e parecia que um outro carro vinha em nossa direção. Mamãe tentou desviar, mas o outro carro bateu de frente em nós. O acidente foi terrível. Mas o mais terrível é que você, papai, estava dirigindo o outro automóvel, e que ao seu lado havia alguém – aquela outra mulher. Sim, foi um grave acidente e todos nós ficamos muito feridos. Como será que você está passando? Ainda não ouvimos notícias suas. Você também se machucou? Você precisa de ajuda, papai?

Naquela noite me perguntei muitas vezes se iríamos sobreviver à catástrofe. Mamãe foi a que mais se feriu e parece não conseguir se restabelecer. Bruno está em estado de choque. Ele ainda está muito mal e não quer falar com ninguém. Eu sinto tanta dor que nem mamãe nem Bruno conseguem me ajudar. O médico disse que preciso de terapia específica para me reerguer. Mas, papai, ao invés da terapia, eu prefiro que você me ajude!

A tristeza dói tanto! Papai, nós sentimos tanto a sua falta! Todos os dias ficamos nos perguntando se você não estaria vindo aqui em casa, para dar uma olhada em nós. Mas os dias vão passando, e você não vem. Papai, temo que tudo tenha acabado e que não exista volta, mas meu coração iria explodir de alegria se, ao abrir os olhos de manhã, visse você entrando no meu quarto. À noite, quando tudo está calmo, ficamos sentados falando de você, de como gostávamos de andar juntos e do quanto gostaríamos que estivesse conosco outra vez.

Como vai, papai? Você sente dores depois do acidente? Você precisa de nós tanto quanto precisamos de você? Se quiser que eu cuide de você, é só me chamar. Eu o amo!

Sua filha Estéfani.

A carta foi enviada. Alguns dias depois, de manhã cedo, Estéfani desceu para tomar o café da manhã. Ela viu seus pais sentados à mesa, de mãos dadas, com lágrimas nos olhos. Ele havia voltado!

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Publicado na revista Chamada da Meia-Noite, novembro de 2004

(publicado em 03/03/09; republicado devido à perda no banco de dados)


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mar
6
Oficialmente velho

Uma das coisas mais lindas da vida é alguém alcançar a terceira idade, cheio de vida e com tantas experiências para compartilhar. A longevidade é promessa de Deus para quem honra os pais: “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá” – Êxodo 20:12). Este texto de Leonardo Boff é um convite à vida.

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Oficialmente velho, por Leonardo Boff

Neste mês de dezembro completo 70 anos. Pelas condições brasileiras, me torno oficialmente velho. Isso não significa que estou próximo da morte, porque esta pode ocorrer já no primeiro momento da vida. Mas é uma outra etapa da vida, a derradeira. Esta possui uma dimensão biológica, pois irrefreavelmente o capital vital se esgota, nos debilitamos, perdemos o vigor dos sentidos e nos despedimos lentamente de todas as coisas. De fato, ficamos mais esquecidos, quem sabe, impacientes e sensíveis a gestos de bondade que nos levam facilmente às lágrimas.

Mas há um outro lado, mais instigante. A velhice é a última etapa do crescimento humano. Nós nascemos inteiros, mas nunca estamos prontos. Temos que completar nosso nascimento ao construir a existência, ao abrir caminhos, ao superar dificuldades e ao moldar o nosso destino. Estamos sempre em gênese. Começamos a nascer, vamos nascendo em prestações ao longo da vida até acabar de nascer. Então entramos no silêncio. E morremos.

A velhice é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e finalmente terminar de nascer. Neste contexto, é iluminadora a palavra de São Paulo: “na medida em que definha o homem exterior, nesta mesma medida rejuvenece o homem interior” (2 Cor 4:16). A velhice é uma exigência do homem interior. Que é o homem interior? É o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, a nossa marca registrada, a nossa identidade mais radical. Esta identidade devemos encará-la face a face. Ela é pessoalíssima e se esconde atrás de muitas máscaras que a vida nos impõe. Pois a vida é um teatro no qual desempenhamos muitos papéis.

Eu, por exemplo, fui franciscano, padre, agora leigo, teólogo, filósofo, professor, conferencista, escritor, editor, redator de algumas revistas, inquirido pelas autoridades doutrinais do Vaticano, submetido ao “silêncio obsequioso” e outros papéis mais. Mas há um momento em que tudo isso é relativizado e vira pura palha. Então deixamos o palco, tiramos as máscaras e nos perguntamos: Afinal, quem sou eu? Que sonhos me movem? Que anjos que habitam? Que demônios me atormentam? Qual é o meu lugar no desígnio do Mistério? Na medida em que tentamos, com temor e tremor, responder a estas indagações vem à lume o homem interior. A resposta nunca é conclusiva; perde-se para dentro do Inefável.

Este é o desafio para a etapa da velhice. Então nos damos conta de que precisaríamos muitos anos de velhice para encontrar a palavra essencial que nos defina. Surpresos, descobrimos que não vivemos porque simplesmente não morremos, mas vivemos para pensar, meditar, rasgar novos horizontes e criar sentidos de vida. Especialmente para tentar fazer uma síntese final, integrando as sombras, realimentando os sonhos que nos sustentaram por toda uma vida, reconciliando-nos com os fracassos e buscando sabedoria. É ilusão pensar que esta vem com a velhice. Ela vem do espírito com o qual vivenciamos a velhice como a etapa final do crescimento e de nosso verdadeiro Natal.

Por fim, importa preparar o grande Encontro. A vida não é estruturada para terminar na morte mas para se transfigurar através da morte. Morremos para viver mais e melhor, para mergulhar na eternidade e encontrar a Última Realidade, feita de amor e de misericórdia. Ai saberemos finalmente quem somos e qual é o nosso verdadeiro nome.

Nutro o mesmo sentimento que o sábio do Antigo Testamento: “contemplo os dias passados e tenho os olhos voltados para a eternidade”.

Por fim, alimento dois sonhos, sonhos de um jovem ancião: o primeiro é escrever um livro só para Deus, se possível com o próprio sangue; e o segundo, impossível, mas bem expresso por Herzer, menina de rua e poetisa: “eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver”. Mas como isso é irrealizável, só me resta aprender na escola de Deus.
Parafraseando Camões, completo: mais vivera se não fora, para tão longo ideal, tão curta a vida.

(publicado em 01/03/09; republicado devido à perda no banco de dados)


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mar
6
A ordem do nascimento dos filhos

Sou o mais velho dos irmãos. Tenho meu álbum do bebê, primeiro presente (uma canequinha de alumínio com meu nome gravado), primeira foto e outras coisas mais. Mas o do meio não sei se tem e o caçula, com certeza, sei que não tem nada destas coisas. A verdade é que o primeiro filho impele os pais a tomar todos os cuidados e devotar-lhes toda a atenção. A experiência adquirida neste período faz com que, a partir do segundo, os pais relaxem (no sentido de ficarem “light”) um pouquinho até descansarem de vez. Com isso, acaba “sobrando para os caçulas, que, por pouco, não acabam esquecidos de vez.

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“Como diz o ditado, o 1º filho é de vidro, o 2º é de borracha, do 3º para frente é de ferro”.
Irmãos mais velhos têm um álbum de fotografia completo, um relato minucioso do dia que vieram ao mundo, fios de cabelo e dentes de leite guardados. Já os caçulas penam para achar fotos do primeiro aniversário e mal sabem a circunstâncias em que chegaram à família.

O que vestir

*1º bebê – Você começa a usar roupas para grávidas assim que o exame dá positivo
*2º bebê – Você usa as roupas normais o máximo que puder
*3º bebê – As roupas para grávidas SÃO suas roupas normais

Preparação para o nascimento

*1º bebê – Você faz exercícios de respiração religiosamente
*2º bebê – Você não se preocupa com os exercícios de respiração, afinal lembra que, na última vez, eles não funcionaram
*3º bebê – Você pede a anestesia peridural no oitavo mês

O guarda-roupas

*1º bebê – Você lava as roupas que ganha para o bebê, arruma de acordo com as cores e dobra delicadamente dentro da gaveta
*2º bebê – Você vê se as roupas estão limpas e só descartas aquelas com manchas escuras
*3º bebê – Meninos podem usar rosa, né?

Preocupações

*1º bebê – Ao menor resmungo do bebê, você corre para pegá-lo no colo
*2º bebê – Você pega o bebê no colo quando seus gritos ameaçam acordar o irmão mais velho
*3º bebê – Você ensina o mais velho a dar corda no móbile do berço

A chupeta

*1º bebê – Se a chupeta cair no chão, você guarda até que possa chegar em casa e fervê-la
*2º bebê – Se a chupeta cair no chão, você a lava com o suco do bebê
*3º bebê – Se a chupeta cair no chão, você limpa na camiseta e dá novamente ao bebê

Troca de fraldas

*1º bebê – Você troca as fraldas a cada hora, mesmo se elas estiverem limpas
*2º bebê – Você troca as fraldas a cada duas ou três horas, se necessário
*3º bebê – Você tenta trocar a fralda antes que as outras crianças reclamem do mau cheiro

Atividades

*1º bebê – Você leva seu filho para as aulas de musicalização para bebês, teatro, contação de história…
*2º bebê – Você leva seu filho para as aulas de musicalização para bebês
*3º bebê – Você leva seu filho para o supermercado, padaria…

Saídas

*1º bebê – A primeira vez que sai sem o seu filho, liga cinco vezes para casa para saber se ele está bem
*2º bebê – Quando você está abrindo a porta para sair, lembra de deixar o número de telefone de onde vai estar
*3º bebê – Você manda a babá ligar só se ver sangue

Em casa

*1º bebê – Você passa boa parte do dia só olhando para o bebê
*2º bebê – Você passa um tempo olhando as crianças só para ter certeza que o mais velho não está apertando, beliscando ou batendo no bebê
*3º bebê – Você passa um tempinho se escondendo das crianças

Engolindo moedas

*1º bebê – Quando o primeiro filho engole uma moeda, você corre para o hospital e pede um raio-x
*2º bebê – Quando o segundo filho engole uma moeda, você fica de olho até ela sair
*3º bebê – Quando o terceiro filho engole uma moeda, você desconta da mesada dele

(publicado em 28/02/09; republicado devido à perda no banco de dados)


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