fev
17
Brincando carnaval

Recebi do Iluminalma Vida em Cristo, texto de um escritor que muito aprecio, Dennis Downing. Compartilho por concordar que esta é uma realidade. Pena que nestes dias nem tudo acaba como no refrão do samba pra tudo se acabar na quarta-feira. Acaba pra sempre.

 


 

“Era quarta-feira de cinzas. Estava sentado na frente da pequena sala onde aplicava injeções na emergência do Hospital Getúlio Vargas. Corredor lotado. Macas enfileiradas dos dois lados. Só dava para uma maca ou cadeira de rodas passar pelo meio, e o que passava de bombeiros chegando e maqueiros voltando era impressionante. Emergência lotada em hospital público não é novidade. Mas, durante Carnaval parece cenário de filme de guerra.

“Meu amigo Tavares, um morador de rua, estava no hospital devido a uma “brincadeira” de outro “amigo”. O “amigão” dele achou engraçado dar algumas latas de “cana” para Tavares e depois jogá-lo no chão em cima de uma planta venenosa. Até hoje não descobri o nome daquela planta, mas, o que ela fez com o braço de Tavares era de espantar. Parecia queimadura de terceiro grau. Além de uma fratura no braço, ele também sofria com a pele ardendo e corria sério risco de infecção.

“Lá estavamos, sentados em cadeiras de plástico, aguardando as injeções: antitetânica, de um antibiótico e do analgésico que Tavares precisava para aguentar a dor. Ainda alimentamos uma pequena esperança de conseguir uma maca para ele, pois Tavares teria que passar alguns dias naquele corredor.

“Enquanto aguardávamos, eu olhei as paredes da sala. Estavam todas enfeitadas com detalhes de decoração de Carnaval – serpentinas em fita de papel, buzinas, balões e chapéus de isopor, e as tradicionais máscaras de todos os tipos. Tudo com cores berrantes. Parecia uma alegria só. Fiquei olhando para a decoração festeira e para os homens, mulheres e crianças imprensados nas cadeiras e enfileirados nas macas no corredor. Quanta festa! Quanta alegria! Quanta dor! Quanta tragédia!

“É claro que nem todas as dezenas de pessoas sendo atendidas na emergência estavam lá em decorrência do Carnaval. Mas, nos dias que sucederam, conversando com um e outro, descobri que vários estavam lá, sim, justamente como consequência dos acidentes, das bebedeiras, das brigas e agressões, enfim, das “brincadeiras” da grande festa do rei Momo.

“Sabia que o “rei Momo”, personagem da mitologia grega, era filho do sono e da noite, e, de acordo com a lenda, foi expulso do Olimpo por ridicularizar os outros deuses? Imagine como o verdadeiro Deus se sente nos dias do nosso Carnaval!

“Sabia que a palavra Carnaval vem do latim “carne levare” que significa “abstenção de carne”? A expressão originalmente se referia à tradição da igreja Católica instituida no século XI da Quaresma, um período de 40 dias de privações que se iniciava na quarta-feira de cinzas e terminava na Páscoa. Uma idéia interessante, certamente com boas intenções. Entretanto, a chegada do período de privações acabou incentivando a entrega aos prazeres da carne no período que antecedia esses dias de abstenção. Logo começou a nascer o espírito do nosso “Carnaval”.

“Enquanto olhei os enfeites bonitos e alegres nas paredes da emergência, não podia deixar de ser comovido pelo contraste com os corpos agredidos, abusados e quebrados ao meu redor. Não havia lugar para se sentar. Um homem tentava dormir numa cadeira. Mãe e filha encolhidas em outra. Só dava para imaginar o que havia sucedido. Um senhor de idade vagava de sala em sala buscando uma pessoa para autorizar um raio-x.

“Conversei com os parentes de um jovem que sofreu um derrame. Veio de outro estado brincar carnaval aqui. E acabou em tragédia, paralisado em cima de uma maca. O irmão, perplexo, só olhava para o espaço. Ele aceitou, grato, uma folha com um salmo. Não tenho a coragem em lugares assim de “pregar”. Alguns tem. Eu não tenho. Só consigo fazer uma pergunta ou outra para compreender um pouco melhor o que estão passando. Escuto. Oro. Compartilho um salmo. É o que precisam.

“Fiquei olhando as máscaras na parede. O que talvez para alguns era um adereço alegre, para mim, parecia algo sinistro. Comecei a pensar, por que máscaras? Para que encobrir? Ocultar o que? O que se tem a ganhar com isso? Quem tem a ganhar com isso? Aí, me lembrei de quem encobre, esconde e finalmente engana. É o pai de tudo isso. É a arte, a profissão dele.

“Carnaval. É uma alegria só. Não é verdade? É o grande momento dos adultos “brincarem”. Sim, claro.

“Só não entendo por que os bancos de sangue tem que fazer tantos apelos nas semanas que antecedem Carnaval. Não faz sentido para mim por que o estado tem que mobilizar tanto policial nesses dias tão alegres. É um mistério por que as emergências ficam lotadas e o movimento no IML se torna tão intenso num momento tão festeiro. Nunca entendi por que aquela minha amiga que é obstetra diz que daqui a nove meses vai nascer tanto bebê nas maternidades públicas, e estranhamente de tantas mães solteiras. Estranho. Não dá para entender. Deve ser coincidência.

“Carnaval é uma alegria só, não é? Vai se juntar? Vai se divertir? Vai brincar? A escolha é sua. Mas, se for, não esqueça sua máscara.”


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set
14
No tempo da minha infância

Recebi de um amigo querido – Álvaro Muzzi – que sempre me presenteia com preciosidades como essa.
Vontade de ser criança outra vez…

No tempo da minha infância” – versos de Ismael Gaião

“No tempo da minha infância, nossa vida era normal.
Nunca me foi proibido comer muito açúcar ou sal.
Hoje tudo é diferente sempre alguém ensina a gente
Que comer tudo faz mal.

Bebi leite ao natural, da minha vaca Quitéria,
E nunca fiquei de cama com uma doença séria.
As crianças de hoje em dia não bebem como eu bebia
Pra não pegar bactéria.

A barriga da miséria tirei com tranquilidade,
Do pão com manteiga e queijo hoje só resta a saudade.
A vida ficou sem graça, não se pode comer massa.
Por causa da obesidade eu comi ovo à vontade,
Sem ter contra indicação, pois o tal colesterol
Pra mim nunca foi vilão.
Hoje a vida é uma loucura, dizem que qualquer gordura
Nos mata do coração.

Com a modernização, quase tudo é proibido
Pois sempre tem uma Lei que nos deixa reprimido.
Fazendo tudo que eu fiz, hoje me sinto feliz
Só por ter sobrevivido.
Eu nunca fui impedido de poder me divertir,
E nas casas dos amigos eu entrava sem pedir.
Não se temia a galera, e naquele tempo era
Proibido proibir


Vi o meu pai dirigir numa total confiança,
Sem apoio, sem “air-bag”, sem cinto de segurança;
E eu no banco de trás solto, igualzinho aos demais,
Fazia a maior festança

No meu tempo de criança, por ter sido reprovado,
Ninguém ia ao psicólogo, nem se ficava frustrado.
Quando isso acontecia, a gente só repetia
Até que fosse aprovado.

 

Não tinha superdotado, nem a tal dislexia,
E a hiperatividade é coisa que não se via.
Falta de concentração se curava com carão
E disso ninguém morria.

Nesse tempo se bebia água vinda da torneira,
De uma fonte natural ou até de uma mangueira.
E essa água engarrafada, que diz-se esterilizada,
Nunca entrou na nossa feira.


Para a gente era besteira ter perna ou braço engessado,
Ter alguns dentes partidos, ou um joelho arranhado.

Papai guardava veneno em um armário pequeno
Sem chave e sem cadeado.
Nunca fui envenenado com as tintas dos brinquedos,
Remédios e detergentes se guardavam sem segredos.
E descalço, na areia, eu joguei bola de meia
Rasgando as pontas dos dedos.


Aboli todos os medos apostando umas carreiras
Em carros de rolimã sem usar cotoveleiras.
Pra correr de bicicleta nunca usei, feito um atleta,
Capacete e joelheiras.
Entre outras brincadeiras, brinquei de carrinho de mão,
Estátua, jogo da velha, bola de Gude e pião.
De mocinhos e “caw-boys” e até de super-heróis
Que vi na televisão.

Eu cantei Cai, Cai, Balão; Palma é palma, Pé é pé;
Gata Pintada; Esta Rua; Pai Francisco e De Marré.
Também cantei Tororó, brinquei de Escravos de Jó
E o Sapo não lava o pé.



Com anzol e jereré, muitas vezes fui pescar,
E só saía do rio pra ir pra casa jantar.
Peixe nenhum eu pegava mas os banhos que eu tomava
Dão prazer em recordar.

Tomava banho de mar na estação do verão
Quando papai nos levava em cima de um caminhão.
Não voltava bronzeado mas com o corpo queimado
Parecendo um camarão.

Sem ter tanta evolução o “Playstation” não havia,
E nenhum jogo de vídeo naquele tempo existia,
Não tinha vídeo cassete, muito menos internet
Como se tem hoje em dia.


O meu cachorro comia o resto do nosso almoço,
Não existia ração nem brinquedo feito osso.
E para as pulgas matar nunca vi ninguém botar
Um colar no seu pescoço.


E ele achava um colosso tomar banho de mangueira,
Ou numa água bem fria debaixo duma torneira.
E a gente fazia farra usando sabão em barra
Pra tirar sua sujeira.

Fui feliz a vida inteira sem usar um celular.
De manhã ia pra aula mas voltava pra almoçar
Mamãe não se preocupava pois sabia que eu chegava
Sem precisar avisar.

Comecei a trabalhar com oito anos de idade,
Pois o meu pai me mostrava que pra ter dignidade
O trabalho era importante pra não me ver adiante
Ir pra marginalidade.

Mas hoje a sociedade essa visão não alcança,
E proíbe qualquer pai dar trabalho a uma criança.
Prefere ver nossos filhos vivendo fora dos trilhos
Num mundo sem esperança.

A vida era bem mais mansa,
Com um pouco de insensatez.
Eu me lembro com detalhes de tudo que a gente fez,
Por isso tenho saudade, e hoje sinto vontade
De ser criança outra vez…


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fev
22
Passeando de ônibus pelo Rio de Janeiro

Não sei se disse isso antes para vocês, sou um homem viajado nesse Rio de Janeiro… rs. Andei de bonde, de trem, lotação, triciclo, ônibus elétrico, lotada… fim dos anos 50 em diante.

Extraí estas imagens de um slide que recebi, que não estava assinado, mas que dizia no final: “Que saudade!”

De fato, que saudade daqueles tempos! Tudo era mais difícil. Os lotações andavam apinhados de gente. Todavia, uma dama não ficava em pé e os idosos eram respeitados. E chegávamos ao nosso destino em paz.

 


Praça Mauá – Palácio Monroe (Passeio) – 1918

 

Praça Mauá – Leblon – 1928

 

Jacaré – Copacabana – 1930

 

Penha – Madureira – 1933

 

Urca – Ipanema – 1944

 

Praça Tiradentes – Penha – 1948

 

Lins – Urca – 1949

 

Nova Iguaçu – Praça Mauá – 1949
Passando por Bento Ribeiro

 

Parada de Lucas – Mourisco – 1949

 

Praça Mauá – Abolição – 1949

 

Castelo – Lagoa – 1950

 

Saens Peña – Largo do Machado – 1950

 

Vaz Lobo – Candelária – 1950 – Entrando na Av. Brasil

 

Nilópolis – Praça Mauá – 1954

 

Engenho Novo – Central do Brasil – 1955

 

Maria da Graça – passagem de nível – 1955

 

Praça Mauá – Rio-Belo Horizonte – 1957

 

Ribeira – Castelo – 1956
Avenida Presidente Vargas, passando pela Central do Brasil

 

19 Linha 60 – Cosme Velho – 1958

 

Praça Mauá – Fátima – C10 – 1959
Praça Mauá – Aeroporto – Linha 62 – 1959

 

Cinelância – 1961 – Passando pelo Teatro Municipal

 

Rio Comprido – Leblon – 1963

 

Linha 176 – Estrada de Ferro – Gávea – 1964

 

Linha 378 – Castelo – Marechal Hermes – 1965

 

Bonsucesso – Duque de Caxias – 1966

 

Botafogo – 1966

Linha 202 – Rio Comprido – 1966

 

Linha 215 – Praça 15 – Rua Uruguai – 1966

 

Linha E-20 – Centro – Leblon – 1966

 

Linha 378 – Castelo – Marechal Hermes – 1967

 

Linha 546 – Marquês de São Vicente – Gávea – 1968
Em frente à PUC

 

Linha 123 – Praça Mauá – Jardim de Allah – 1970
Avenida Rio Branco


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fev
12
As 10 regras do futebol de rua

Estas regras de futebol de rua me fizeram voltar à infância e relembrar as muitas vidraças quebradas, as bolas partidas ao meio – pelos donos das vidraças, é claro! – e ainda as muitas horas que ficávamos na rua, ora jogando, ora esperando um time perder para o nosso poder entrar.


Eu, à esquerda e meu irmão caçula – Cosme, à direita. O que as garotas estão fazendo na foto? Só pose. Elas não jogavam bola conosco… rs.

 

Joguei muito futebol de rua, quebrei braço, ralei tudo que tinha direito, apanhei muito da minha mãe por ficar na rua muito tempo e, é claro, perdi muitas bolas dente-de-leite. Teve uma que durou só meia hora. Ainda cheirava a plástico novinho quando quebrou a vidraça do vizinho. O sujeito – seu Paulo, cara de mau, “brabo” igual pitbull, que depois ficou amigo da gente [quebrou o vidro, pagava e tava tudo certo] – cortou-a ao meio e jogou pra gente: “é isso que eu faço com a bola de vocês!” Começava tudo de novo: fazer vaquinha, ir no armarinho e combrar outra. Mas, antes, tinha que pagar o vidro do vizinho.

Quem me enviou por email, foi um amigo e irmão em Cristo de São Paulo – Armando Cecatto – que também já jogou muita bola na rua. As regras eram essas. Podem acreditar.

 

1. A BOLA

A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do irmão menor.



 

2. O GOL

O gol pode ser feito com o que estiver à mão: tijolos, paralelepípedos, camisas emboladas, chinelos, os livros da escola e até o seu irmão menor.



 

3. O CAMPO

O campo pode ser só até o fio da calçada, calçada e rua; rua e a calçada do outro lado; e, nos grandes clássicos, o quarteirão inteiro.


 

4. DURAÇÃO DO JOGO

O jogo normalmente vira em 5 e termina 10 minutos. Geralmente, no relógio de quem marca, dura uns 8 minutos cravados. Também vale: quem levar dois gols sai e entra o outro time ou pode durar até a mãe do dono da bola chamar ou escurecer. Nos jogos noturnos, até alguém da vizinhança ameaçar chamar a polícia.

 

5. FORMAÇÃO DOS TIMES

Varia de 3 a 70 jogadores de cada lado. Ruim vai para o gol. Perneta joga na ponta, esquerda ou a direita, dependendo da perna que faltar. De óculos é meia-armador, para evitar os choques. Gordo é beque.

 

6. O JUIZ

Não tem juiz.

 

7. AS INTERRUPÇÕES

No futebol de rua, a partida só pode ser paralisada em três eventualidades:

7.1 – Se a bola entrar por uma janela: nesse caso, os jogadores devem esperar 10 minutos pela devolução voluntária da bola. Se isso não ocorrer, os jogadores devem designar voluntários para bater na porta da casa e solicitar a devolução. Primeiro, com bons modos. Depois com ameaças de depredação.

7.2 – Quando passar na rua uma garota bonita. Mãe com criança de colo ou carrinho de bebê; pessoas mais velhas e anciãos também. É provável que ouçam assobios e vaias se demorarem a passar.

7.3 – Quando passarem veículos pesados. De ônibus para cima. Bicicletas e fusquinhas podem ser chutados junto com a bola e, se entrar, é Gol.

 

8. AS SUBSTITUIÇÕES

São permitidas substituições nos casos de:

8.1 – Um jogador ser carregado para casa pela orelha para fazer lição.

8.2 – Jogador que arrancou o tampão do dedão do pé. Porém, nestes casos, o mesmo acaba voltando a partida após utilizar aquela água santa da torneira do quintal de alguém.



8.3 – Em caso de atropelamento.

 

9. AS PENALIDADES

A única falta prevista nas regras do futebol de rua é atirar o adversário dentro do bueiro.

 

10. A JUSTIÇA ESPORTIVA

Os casos de litígio serão resolvidos na briga. Prevalecem os mais fortes ou quem pegar uma pedra antes.

 

Quem não jogou, perdeu um dos melhores momentos da vida.


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