mar
18
A teologia moral da manga

Desde pequeno sempre fui muito conversador. Várias vezes fiquei de castigo na escola por conversar durante as aulas. Mas aonde quer que eu fosse, no ônibus, trem ou outro lugar, se tivesse alguém para papear, lá estava eu a puxar uma conversa. Até hoje cultivo o hábito e, claro, respeitando quando o outro demonstra não estar a fim de prosear.

Esta crônica que recebi do meu amigo Álvaro Muzzi expressa profunda sabedoria. Do escritor de renome, que é Rubem Alves, mas principalmente do matuto que a inspirou.


Rubem Alves

“O velho caipira, com cara de amigo, que encontrei num Banco, estava esperando para ser atendido. Ele ia abrir uma conta. Começo de um novo ano… Novas perspectivas…E como não podia deixar de ser, também começou ali um daqueles papos de fila de banco. Contas, décimo terceiro que desapareceu, problemas do Brasil, tsunami… Será que vai chover?

Mas em determinado momento a conversa tomou um rumo:

“- Qual é então o maior problema do Brasil para ser resolvido? “E aí o representante rural, nosso querido “Mazaropi da modernidade” falou com um tom sério demais para aquele dia:

” – O Maior Problema do Brasil é que sobra muita manga!”

Tentei entender a teoria…Fez-se um silêncio e ele continuou: ” – O senhor já viu como sobra manga hoje debaixo das árvores? Já percebeu como se desperdiça manga? “Sim… Creio que todos já percebemos isto… Onde tem pé de manga, tem sobrado manga…E aí ele continuou:

” – Num país onde mendigo passa fome ao lado de um pé de manga… Isso é um absurdo! Num país que sobra manga tem pouca criança. Se tiver pouca criança as casas são vazias… Ou as crianças que tem já foram educadas para acreditar que só “ice cream” e jujuba são sobremesas gostosas. Boa é criança que come manga e deixa escorrer o caldo na roupa… É sinal que a mãe vai lavar, vai dar bronca, vai se preocupar com o filho. Se for filho tem pai…

Se tiver pai e manga de sobremesa é por que a família é pobre… Se for pobre, o pai tem que ser trabalhador… Se for trabalhador tem que ser honesto… Se for honesto, sabe conversar… Se souber conversar, os filhos vão compreender que refeição feliz tem manga que é comida de criança pobre e que brinca e sobe em árvore… Se subir em árvore, é por que tem passarinho que canta e espaço para a árvore crescer e para fazer sombra… Se tiver sombra tem um banco de madeira para o pai chegar do trabalho e descansar…

Quem descansa no banco, depois do trabalho, embaixo da árvore, na sombra, comendo manga é por que toca viola… E com certeza tá com o pé na grama… Quem pisa no chão e toca música tem casa feliz… Quem é feliz e canta com o violeiro, sabe rezar… Quem sabe rezar sabe amar… Quem ama, se dedica… Quem se dedica, ama, reza, canta e come manga, tem coração simples… Quem tem coração assim, louva a Deus.

Quem louva a Deus, não tem medo… Nada faltará porque tem fé… Se tiver fé em Deus, vê na manga a providência divina… Come a manga, faz doce, faz suco e não deixa a manga sobrar… Se não sobra manga, tá todo mundo ocupado, de barriga cheia e feliz. Quem tá feliz…. não reclama da vida em fila do banco… ”
Daí fez-se um silêncio…”



15 Comments »

  1. Mais deliciosa (a crónica) do que uma manga! Vale o silêncio que provocou. A sequência é perfeita. Adorei.

    Quando alguém passa fome mesmo ao lado da fartura, deixando assolar e apodrecer as mangas, algo vai muito mal…

    Beijos
    Luísa

    Comentário by Anônimo — março 18, 2010 @ 9:06 am

  2. Olá Antônio meu amigo!
    Crônica PERFEITA… Adorei!
    Estou convencido por A+B que realmente o maior problema do Brasil é que sobra muita manga mesmo.
    Parabéns por trazer esta pérola. Amei o texto.
    Forte abraço, Fernandez.

    Comentário by Fernandez — março 18, 2010 @ 12:43 pm

  3. Meu queridissimo amigo Antonio

    Sensacional essa crônica me fez lembrar da minha infância querida, onde na minha casa tinha pé de manga e com certeza lá não sobrava manga pois, tinha muita gente querendo saborear, na sombra de sua imensa arvore, me lambuzava muito , não só da polpa da manga, mas de alegria, por estar rodeado de amigo se ainda chupando uma fruta tão saborosa.
    O grande problema dessas sobras de mangas no nosso Brasil, é que as pessoas não valorizam mais as coisa simples da vida.
    Bjs no coração

    Comentário by Maria — março 19, 2010 @ 5:51 pm

  4. Olá meu amigo conversador e de coração simples.
    Se não sobrassem mangas, muitas conversas estariam minguadas de assuntos. rs*
    Adorei o texto.

    Um forte abraço!

    Comentário by Anônimo — março 20, 2010 @ 4:45 am

  5. Que Post Fantástico!
    AMIGO ANTONIO REGLY,

    Mais um super presente que você nos repassa. A crônica é um primor de retrato da vida singela, cheia de beleza, amor ao próximo e principalmente, o respeito à lei da fé e a devoção ao nosso deus misericordioso.
    Parabenizo-o fervorosamente por mais um lindo Post!
    Abraços fraternos,
    LISON.

    Comentário by LISONN — março 24, 2010 @ 3:15 am

  6. Cara, nem desconfiava que a manga é o quarto poder no mundo ….

    Comentário by Joselito — março 24, 2010 @ 4:35 pm

  7. Lu,

    Sabemos que em muitos lugares a situação está difícil para algumas famílias. Mas é inconcebível quando uma família tem quintal e não planta uma hortaliça, um pé de fruta, dentre outros. Aqui no Brasil qualquer coisa que se planta dá. Além disso, as pessoas não criaram hábitos para uma alimentação saudável. Os legumes não são tão caros (só quando estão fora da safra ou devido às perdas por causa de chuva). No mais, tem o sacolão volante, que é um ônibus do Governo que vende frutas e legumes num preço bem acessível.
    Também achei lindo demais a sequência, a qual revela muita sabedoria do observador.

    Obrigado por comentar.

    Abraço do amigo,

    Antonio

    Comentário by Antonio Regly — março 26, 2010 @ 2:06 am

  8. Fernandez,
    Fui criado numa cidade onde o forte era a banana e laranja. Nós passávamos bastante dificuldade. Mniha mãe pegava uns trocados e me mandava, juntamente com meu irmão, irmos ao depósito para comprar as frutas, pois na feira era mais caro.
    Com uns trocadinhos trazíamos duas bolsas de frutas.
    A crônica retrata uma realidade e é uma pena.

    Abraço e obrigado por comentar.

    Do amigo,

    Antonio

    Comentário by Antonio Regly — março 26, 2010 @ 2:07 am

  9. Mary,

    Só por compartilhar este fato posso dizer que você teve infância. Sempre fui apaixonado por frutas e a manga está dentre as preferidas.
    Não tem coisa melhor que apanhar a fruta no pé e saboreá-la. E se tem amigos por perto, então, não tem coisa melhor. Chupar manga e bater papo. Acabaram as mangas, vamos pegar mais? E continuar a diversão.

    Que bom que gostou!

    Abraço e obrigado por comentar.

    Do amigo,

    Antonio

    Comentário by Antonio Regly — março 26, 2010 @ 2:07 am

  10. Amigo Sérgio,

    Obrigado pelas palavras de carinho.

    Às vezes fico pensando no privilégio que têm aquelas pessoas que vivem em cidades com muitos pomares, assistem o nascer e o pôr do sol, tomam banho de cachoeira, divertem-se com o canto dos pássaros e, o que é melhor, deleitam-se nos muitos bons “causos” contados pelos mais novos e os mais experientes.

    De vez em quando assisto um programa na Record (acho que é o Domingo Espetacular), em que o chef Olivier visita “cantinhos” do Brasil para ver como faz e experimentar um ou outro prato, bolo ou doce, e bate aquele papo com o pessoal simples, humilde, mas de muita sabedoria de vida.

    Acho que foi para isso que Deus fez as mangas: para saborearmos e, debaixo do pé, trocarmos, felizes, as nossas prosas.

    Abraço do amigo,

    Antonio

    Comentário by Antonio Regly — março 26, 2010 @ 2:08 am

  11. Lison,

    Postar a crônica foi como compartilhar um presente mesmo. Como quem ganha uma caixa de bombons, tira um e dá aos amigos os demais.
    Estava precisando de algo assim no dia que a recebi e assim tem sido nestes dias. Deus sempre me diz algo através de um email, uma crônica, uma música ou comentário de amigo.

    Você também nos tem brindado com seus presentes.

    Obrigado por visitar e comentar.

    Abraço do amigo,

    Antonio

    Comentário by Antonio Regly — março 26, 2010 @ 2:08 am

  12. Joselito,

    Se é o quarto não sei, mas queela faz uma diferença, isso faz.

    Abraço e obrigado por comentar.

    Do amigo,

    Antonio

    Comentário by Antonio Regly — março 26, 2010 @ 2:09 am

  13. Amigo Sérgio,

    Obrigado pelas palavras de carinho.

    Às vezes fico pensando no privilégio que têm aquelas pessoas que vivem em cidades com muitos pomares, assistem o nascer e o pôr do sol, tomam banho de cachoeira, divertem-se com o canto dos pássaros e, o que é melhor, deleitam-se nos muitos bons “causos” contados pelos mais novos e os mais experientes.

    De vez em quando assisto um programa na Record (acho que é o Domingo Espetacular), em que o chef Olivier visita “cantinhos” do Brasil para ver como faz e experimentar um ou outro prato, bolo ou doce, e bate aquele papo com o pessoal simples, humilde, mas de muita sabedoria de vida.

    Acho que foi para isso que Deus fez as mangas: para saborearmos e, debaixo do pé, trocarmos, felizes, as nossas prosas.

    Abraço do amigo,

    Antonio

    Comentário by Antonio — março 26, 2010 @ 11:22 pm

  14. Excelente Blog. muito abençoador!

    Comentário by Fabio Faith — abril 3, 2010 @ 7:35 pm

  15. […] Antonio Regly (1) […]

    Pingback by Recebi, Li e Gostei » Blog Archive » Concurso Cultural diHITT: Eu mereço um netbook! — abril 19, 2010 @ 2:52 am

RSS feed for comments on this post. TrackBack URL

Leave a comment